Recentemente um casal de amigos meus foi a uma missão no interior de Goiás entre os remanescentes quilombolas, o povo Kalunga, entre tantas coisas que eles comentaram, eu gostaria de comentar aqui o aspecto econômico atual deste povo.
Este povo, imagino que todos saibam, é descendente de escravos que fugiram para quilombos organizados e após a abolição da escravatura permaneceram lá tendo hoje reconhecida a posse sobre estes territórios, no entanto a mera posse da terra não lhes garante uma melhor condição de vida, a grande maioria é formada por analfabetos e vivem sem saneamento básico, água tratada, energia elétrica ou qualquer benefício da sociedade moderna, sobreviviam até bem pouco tempo do que produziam, agricultura de subsistência, das trocas que faziam do excedente com pessoas que passavam por lá vindo da cidade, e da ajuda eventual e individual.
Recentemente esta realidade tem mudado, o atual governo desde a gestão anterior tem ajudado financeiramente através do programa bolsa-família e é precisamente deste ponto que quero falar, muitos podem achar louvável a atitude do governo em ajudar financeiramente este povo esquecido, mas quais são as conseqüências imediatas desta ajuda ? ela tem ajudado de fato ?
Os relatos deste casal sobre a situação atual do Kalungas foi o seguinte: Após a ajuda financeira através do bolsa–família a maioria das pessoas deixou de trabalhar na roça produzindo o que precisavam e trocando o excedente, hoje eles vão à cidade uma vez ao mês e compram o que necessitam, passando o resto do mês ociosos, muitos homens compram bebidas alcoólicas e tem aumentado o número de alcoólatras na comunidade, as mulheres e crianças passam a ficar mais tempo na cidade e com o tempo ocioso passaram a mendigar, com se não bastasse muitos homens da cidade mantêm relações sexuais com algumas mulheres, algumas menores, lá mesmo ou no quilombo o que tem feito aumentar o número de gravidez indesejada, sendo comum ver meninas de 18 anos com três ou quatro filhos, um de cada pai, muitos dos quais as meninas viram uma única vez na vida !
Não obstante toda a propaganda do governo sobre o programa de distribuição de renda, que justiça seja feita, tem seu mérito, mesmo sendo um novo nome para a unificação dos programas do governo anterior, os Kalungas continuam sem saneamento básico a ponto de não existirem banheiros, água potável, energia elétrica, etc, ou seja o mínimo básico para uma vida digna.
Não, esse não é um fato hipotético, uma utopia as avessas, uma invenção de uma mente sádica, esta é a mais pura, nua, crua e dura realidade; Não, não está acontecendo em algum país esquecido da África, sul da Ásia ou América central, não isto está acontecendo aqui ao nosso lado, em nosso país, com nosso dinheiro !
Neste ponto normalmente as pessoas se dividem apaixonadamente em duas posturas extremas, a primeira defende a manutenção do sistema atual a despeito das evidências em contrário, justificando que é melhor esta ajuda à ajuda nenhuma e quase sempre comparando-se ao governo anterior afirmando que o mesmo nada fez.
A segunda afirma que deveria ser abolida qualquer forma de ajuda financeira, já que a suposta ajuda só piorou ainda mais a situação já extrema da comunidade, alem de gastar mal os recursos tirados do contribuinte e servir unicamente a propósitos eleitorais.
O bom senso diz que o equilíbrio é quase sempre a melhor das opções, e um antigo ditado diz que se você der um peixe a uma pessoa ela tem alimento para um dia, se você a ensina a pescar ela terá alimento por toda vida.
Como falei acima o programa Bolsa-Família tem seu mérito, mas não se pode colocar o carro na frente dos bois, dar dinheiro as pessoas que não tem o básico para uma condição de vida digna e a mínima educação para usá-lo com sabedoria é como dar uma arma de fogo na mão de uma criança, o tiro sai pela culatra e no lugar de um aumento da qualidade de vida o que se tem é a deterioração de uma comunidade.
Mas então o que deve ser feito ? Investir em saneamento básico, saúde, educação, segurança e infra-estrutura, identificação da vocação local e oportunidades, ensino técnico e empreendedor para que estas comunidades se tornem auto-sustentáveis e com o tempo não dependam mais de ajuda financeira para subsistência, pelo contrário a médio ou longo prazo possam buscam linhas de financiamento para melhorar ainda mais sua comunidade, com isso alem dos benefícios materiais mensuráveis de curto prazo, haveria um aumento da auto estima destas pessoas, que não deixariam de produzir o que necessitam mas o fariam melhor, com mais excedentes podendo assim adquirir o que necessitam com seu próprio esforço, afinal não tem bolsa do governo que substitua a auto-realização.
Se tenho esperança que esta realidade mude ? não ! ao menos não neste governo. Não sou tão ingênuo assim, como citei acima isto é antes de tudo uma questão de bom senso e equilíbrio e sabemos que nossos políticos não gostam destas coisas, elas não contam pontos na corrida para o poder.
Quem sabe a próxima geração de políticos consiga enxergar o óbvio, até lá as bolsas-ilusão do governo continuarão a dar votos !